ausência

tenho andado ausente deste espaço..muito por culpa de um dos meus pequenos mundos, o trabalho!

se ele é muito?

na escola, sim. na UA, sim.

e a culpa disto tudo é o dia não ter 48 horas!

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4 Responses to “ausência”


  1. 1 marciorrsantos November 9, 2007 at 3:45 am

    Quem sabe não inventem um dia de 48 horas lá para os lados do SL…

    As pessoas que se preocupam com tudo e com todos e sobretudo em saber mais, são assim mesmo, acabam por fazer, fazer, fazer… não trabalham mais porque o tempo não o permite mas no final ainda acreditam que poderiam ter feito sempre mais=)

    Cumprimentos

  2. 2 mónica November 9, 2007 at 9:44 pm

    cacau…
    se o teu dia tivesse 48 horas, arranjavas forma de ter trabalho para mais umas cinco 🙂
    como disseram acima: quem é dedicado cansa-se… mas procura sempre fazer melhor
    beijos grandes =)

  3. 3 Olga November 9, 2007 at 10:22 pm

    pois é Marcio…mas por mais que se queira…o tempo não estica! que pena!

    Querida Mónica..as saudades que eu tenho das nossas conversas e desabafos!

    Até muito breve!

  4. 4 João Lima November 13, 2007 at 12:45 pm

    Olá!

    Ausência…

    E se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha…

    “Vi no relógio da pequena estação que já passava das onze horas da noite. Fui andando até ao hotel. Senti, como noutras alturas, a resigna­ção e o alívio que nos infundem os lugares familiares. O amplo portão estava aberto; a quinta, às escuras. Entrei no vestíbulo, cujos espelhos pálidos reflectiam as plantas do salão. Curiosamente, o dono não me re­conheceu e estendeu-me o registo. Peguei na caneta que estava presa ao balcão, molhei-a no tinteiro de bronze e, ao inclinar-me sobre o livro aberto, ocorreu a primeira surpresa das muitas que se me deparariam nessa noite. O meu nome, Jorge Luis Borges, já estava escrito, e a tinta, ainda fresca.

    O dono disse-me: — Julguei que o senhor já tivesse subido. Após o que me olhou atentamente e corrigiu:

    — Desculpe, senhor. O outro é tão parecido, mas o senhor é mais jovem.

    Perguntei-lhe: – Com que quarto é que ele ficou? – Pediu o quarto dezanove — foi a resposta. Era o que eu temera.

    Larguei a caneta, e subi a correr as escadas. O quarto 19 ficava no segundo piso e dava para um triste pátio descurado, no qual havia uma grade e, recordo-o, um banco de jardim. Era o quarto mais alto do ho­tel. Abri a porta, que cedeu. Não tinham apagado o pequeno lustre. Debaixo da desapiedada luz, reconheci-me. De costas, na estreita cama de ferro, mais velho, enfraquecido e muito pálido, estava eu, os olhos perdi­dos nos altos ornamentos de gesso. Chegou-me a voz. Não era exacta­mente a minha; era a que costumo ouvir nas minhas gravações, ingrata e sem matizes.

    – Que estranho — dizia —, somos dois, e somos o mesmo. Mas nada é estranho nos sonhos.

    Perguntei assustado: – Então, tudo isto é um sonho? – É, estou convicto, o meu último sonho.

    Com a mão, indicou o frasco vazio sobre o mármore da mesa-de­cabeceira.

    — Tu ainda terás muito que sonhar, antes de chegares a esta noite. Em que datas estás?

    – Não sei muito bem — disse-lhe aturdido. — Mas ontem fiz ses­senta e um anos.

    – Quando a tua vigília chegar a esta noite, terás feito, ontem, oitenta e quatro. Hoje, estamos a vinte e cinco de Agosto de mil novecentos e oitenta e três.

    – Tantos anos haverá que esperar — murmurei.

    – A mim já nada me sobra — disse com brusquidão. — Posso mor­rer a qualquer momento, posso perder-me no que não sei, e continuo a sonhar com o duplo. O tema gasto que me deram os espelhos e Stevenson.
    Senti que a evocação de Stevenson era uma despedida e não um rasgo pedante. Eu era ele, e compreendia. Não bastam os momentos mais dramáticos para se ser Shakespeare e encontrar frases memoráveis. Para o distrair, disse-lhe:

    – Sabia que isto te ia acontecer. Aqui mesmo, há anos, num dos quartos de baixo, iniciámos o rascunho da história deste suicídio.

    — Sim — respondeu-me lentamente, como se juntasse recordações. — Mas não vejo a relação. Nesse rascunho, eu tinha comprado uma passa­gem de ida para Adrogué e, já no Hotel Las Delicias, tinha subido ao quarto dezanove, o mais afastado de todos. Aí, suicidara-me. — Por isso, estou aqui — disse-lhe.

    – Aqui? Estamos sempre aqui. Aqui estou eu, a sonhar-te na casa da Rua Maipú. Aqui estou a passar-me, no quarto que foi da mãe.

    – Que foi da mãe — repeti, sem querer entender. — Eu sonho-te no quarto dezanove, no pátio de cima.

    – Quem sonha quem? Eu sei que te sonho, mas não sei se me estás

    a sonhar. O hotel de Adrogué foi demolido há já tantos anos, vinte, tal­vez trinta, quem sabe.

    – O sonhador sou eu — repliquei, com certo desafio.

    – Não te dás conta de que o fundamental é averiguar se há um só homem a sonhar ou dois que se sonham.

    – Eu sou Borges, que viu o teu nome no registo e subiu.

    — Borges sou eu, que estou a morrer na Rua Maipú. Houve um silêncio, o outro disse-me:

    — Vamos tirar a prova. Qual foi o momento mais terrível da nossa vida?

    Inclinei-me sobre ele e falámos os dois ao mesmo tempo. Sei que os dois mentimos.
    Um ténue sorriso iluminou-lhe o rosto envelhecido. Senti que esse sorriso reflectia, de algum modo, o meu.

    — Mentimo-nos — disse-me —, porque nos sentimos dois e não um. A verdade é que somos dois e não um.

    Essa conversa irritou-me. De modo que lho disse. E acrescentei:

    — E tu, em mil novecentos e oitenta e três, não vais revela-me nada sobre os anos que me faltam?

    — Que posso dizer-te, pobre Borges? Repetir-se-ão as desditas a que já estás habituado. Ficarás sozinho nesta casa. Passarás as mãos pelos livros sem letras e pelo medalhão de Swedenborg e pela bandeja de madeira com a cruz federal. A cegueira não é a treva; é uma forma de solidão. Voltarás à Islândia.

    — Islândia! Islândia dos mares!

    — Em Roma, repetirás os versos de Keats, cujo nome, como o de to­dos, foi escrito na água.

    — Nunca estive em Roma.

    — Também há outras coisas. Escreverás o nosso melhor poema, que será urna elegia.

    — À morte de… — disse eu. Não me atrevi a dizer o nome. — Não. Ela viverá mais que tu.

    Ficámos silenciosos. Prosseguiu:

    – Escreverás o livro com o qual temos sonhado tanto tempo. Por volta de mil novecentos e setenta e nove, compreenderás que a tua su­posta obra mais não é do que uma série de borrões, uma miscelânea, e cederás a vã e supersticiosa tentação de escreveres o teu grande livro. A superstição que nos infligiu o Fausto de Goethe, a Salambo, o Ulisses. Enchi, por mais incrível que pareça, muitas páginas.

    — E, por fim, compreendeste que tinhas fracassado.

    – Pior. Compreendi que era uma obra-prima, no sentido mais opressor da palavra. As minhas boas intenções não tinham passado das primeiras páginas; nas outras estavam os labirintos, remendos, o homem que cria para si uma imagem, o reflexo que se crê verdadeiro, o tigre das noites, as batalhas que acabam em sangue, Juan Muraña cego e fatal, a voz do Macedonio, a nave feita com as unhas dos mortos, o inglês antigo repetido nas tardes.

    — Esse museu é-me familiar — observei com ironia.

    — E ainda, as falsas recordações, o jogo duplo dos símbolos, as lon­gas enumerações, o bom manuseamento do prosaísmo, as simetrias im­perfeitas, que os críticos descobrem com alvoroço, as citações nem sem­pre apócrifas.

    – Publicaste esse livro?

    – Joguei, sem convicção, com o propósito melodramático de o des­truir, eventualmente pelo fogo. Acabei por publicá-lo em Madrid, sob pseudónimo. Falou-se de um torpe imitador de Borges, que tinha o de­feito de não ser Borges e de ter repetido o exterior do modelo.

    – Não me surpreende — disse eu. — Todo o escritor acaba por ser o seu discípulo menos inteligente.

    – Esse livro foi um dos caminhos que me trouxeram a esta noite. Quanto aos outros… A humilhação da velhice, a convicção de já ter vivi­do cada dia…

    – Não escreverei tal livro — disse.

    – Escrevê-lo-ás. As minhas palavras, que são agora o presente, serão apenas a memória de um sonho.

    Incomodou-me o seu tom dogmático, sem dúvida o que uso nas mi­nhas aulas. Incomodou-me que nos parecêssemos tanto e que ele apro­veitasse a impunidade que lhe dava a proximidade da morte. Para me li­bertar, disse-lhe:

    – Tens mesmo a certeza de que vais morrer?

    — Sim — replicou-me. — Sinto uma espécie de doçura e de alívio, que nunca senti. Não posso comunicá-lo. Todas as palavras requerem uma experiência partilhada. Porque é que aquilo que te digo parece inco­modar-te tanto?

    – Porque nos parecemos demasiado. Tenho aversão à tua cara, que é a minha caricatura, tenho aversão à tua voz, que é o meu arremedo, te­nho aversão à tua sintaxe patética, que é a minha.

    – Eu também — disse o outro. — Por isso resolvi suicidar-me. Um pássaro cantou na quinta.

    — E o último — disse o duplo.

    Com um gesto, chamou-me para o seu lado. A sua mão procurou a minha. Retrocedi; temi que ambas se confundissem.

    Disse-me:

    – Os estóicos ensinam que não nos devemos queixar da vida; a por­ta da prisão está aberta. Sempre assim o entendi, mas o tédio e a cobar­dia demoraram-se. Aí há uns doze dias, dava eu uma conferência em La Plata sobre o livro quarto da Eneida. De repente, ao escandir um hexâ­metro, soube qual era o meu caminho. A partir desse momento, senti­-me invulnerável. A minha sorte será a tua, receberás a brusca revelação, no meio do latim e de Virgílio e já terás completamente esquecido este curioso diálogo profético, que decorre em dois tempos e em dois luga­res. Quando voltares a sonhá-lo serás o que sou e tu serás o meu sonho.

    — Não o esquecerei, e vou escrevê-lo amanhã.

    — Ficará no mais profundo da tua memória, debaixo da maré dos sonhos. Quando o escreveres, julgarás estar a urdir um conto fantástico. Não será amanhã, ainda te faltam muitos anos.

    Deixou de falar, compreendi que tinha morrido. De certo modo eu morria com ele; inclinei-me aflito sobre a almofada e já não havia nin­guém.

    Fugi do quarto. Lá fora não estava o pátio, nem as escadas de már­more, nem a grande casa silenciosa, nem os eucaliptos, nem as estátuas, nem o caramanchão, nem as fontes, nem o portão da grade da quinta na povoação de Adrogué.

    Lá fora, esperavam-me outros sonhos.”

    Jorge Luis Borges, 25 de Agosto de 1983, aqui:http://www.fcsh.unl.pt/borgesjorgeluis/textos_borgesjorgeluis/textos4.htm

    Com amizade.


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